quinta-feira, 25 de junho de 2020

Onde está o conflito?

"Onde está o conflito?" é um dos grandes livros do filósofo analítico contemporâneo Alvin Plantinga. Neste livro ele trabalha exatamente o que o título sugere: há o conflito entre a religião e a ciência ou há um conflito entre o naturalismo e a ciência? Sua tese geral, já apresentada na introdução diz que há sim um certo conflito entre a religião - mais especificamente as religiões teístas como o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo - e a ciência, mas Plantinga defende que é apenas um conflito superficial; contudo, existe uma profunda concordância entre a ciência e a religião; e ainda, que há pouca concordância mas um profundo conflito entre o naturalismo - tese de que não existe uma entidade divina criadora do universo e que sustenta-o - e a ciência moderna.

É evidente que de nenhuma forma o cristianismo detesta a "ciência". Se assim fosse, os 65% dos ganhadores de prêmios nobel que são cristãos (embora seja verdade que nem todos prêmios desses 65% tenham sido científicos) estariam indo contra essa "lei cristã" de se opor à ciência. Isso para não citar Isaac Newton, Leibniz da Silva e a turma toda do passado que forneceu os pilares da ciência moderna e julgavam na crença da proposição "Deus existe" como verdade. Há quem diga que os medievais (cuja época é ridiculamente chamada Idade das Trevas) eram contra o conhecimento científico e acreditavam que a Terra era plana, e outras baboseiras inseridas no pensamento da época. A questão é que isso é apenas um pequeno grupo desinformado que vive nas redes sociais que tentam se passar por intelectuais. 

Mas será que algum filósofo pode dizer algo relevante sobre mecânica quântica, relatividade geral, psicologia evolucionista, estrutura molecular, complexidade irredutível, e outras tantas teorias científicas que são debatidas nas melhores universidades do mundo? Talvez o filósofo esteja limitado a entender do que se tratam esses assuntos ao invés de partir para o laboratório de realizar seus próprios experimentos, mas isso de nenhuma forma significa que o filósofo não está justificado em apresentar falhas em conclusões da ciência; ou até mesmo qualificar o que realmente é ciência e aquelas meras especulações ou conclusões precoces acerca de alguns resultados da ciência. Neste livro vemos que muitas especulações da ciência são, na verdade, metafísica (muitas vezes de péssima qualidade) e não ciência. Plantinga analisa as conclusões a partir de alguns experimentos científicos, e algumas outras inferências, e expõe com muita claridade a fraqueza de algumas das principais objeções à crença teísta.

Plantinga começa analisando o que seriam as "objeções mais fortes à crença teísta", ou pelo menos as mais famosas. E a mais famosa é a teoria da evolução - a tese de que todos organismos vivos como conhecemos hoje surgiram de um processo adaptativo lento, juntamente com mutações genéticas que conectam todas as espécies. Mas ele também demonstra que as "fortes" objeções dos chamados "cavaleiros do ateísmo", na maioria das vezes, nada mais é do que um argumentum ad derisionem (um nome bonito para um "argumento" via ridicularização). Parece que o que é mais convincente nos argumentos do ateísmo de Dawkins e Dennett, por exemplo, é essa tentativa de tentar ridicularizar a crença no lugar de "buscar a verdade seriamente" (como o próprio Dennett sugere), ignorando mais algumas das grandes respostas proporcionadas por alguns dos milhares de Cristãos que já existiram. Mas é evidente que ridicularizar uma crença não torna ela falsa, uma vez que a autoridade na filosofia é a demonstração de uma tesa, ainda que na maioria dos casos esta tese serve para descartar alguma outra teoria. É também falso que uma teoria é verdadeira porque ela é bastante atacada e ridicularizada. O critério de verdade é uma asserção metafísica e depende da validade da mesma. É de fato lamentável que mentes com capacidade de argumentar com bastante seriedade científica deixem se levar por questões emocionais acerca de suas crenças - ou talvez não consigam alcançar essa seriedade, mas OK.

No que diz respeito ao aspecto científico de seu conhecimento, Richard Dawkins talvez seja um grande biólogo, mas parece fazer muita confusão com as palavras em seus saltos metafísicos que utiliza para atacar as religiões teístas. Suas inferências são baseadas na confusão entre possibilidade e probabilidade, argumentando que, por ser possível que o processo evolutivo ocorra sem um Designer segue-se que é bastante provável que tal processo tenha acontecido. Ser possível que algo aconteça não segue-se que é provável que o mesmo aconteça. Plantinga identifica, assim como qualquer outra pessoa poderia identificar, que a tese de Dawkins de que "os dados da evolução indicam um universo sem design" não é propriamente um "dado" da teoria da evolução, mas uma interpretação a partir das obervações da ciência moderna. A tese de Dawkins é de que há indícios especulativos de que as transições ocorreram, dado os registros fósseis, mas Plantinga demonstra que nada nestas suposições elimina a possibilidade de que essa conexão entre uma espécie e outra não fosse dirigida. Essa hipótese, inclusive, não é nem mesmo descartada pelo assim auto-denominado "bulldog de Darwin", Thomas Huxley. 

A questão de a evolução constituir um derrotador para a crença no design cósmico parece estar localizada em que, se é possível e perfeitamente demonstrável que a evolução ocorre em baixa escala, segue-se que é provável que a macro evolução também ocorreria. Mas isso é claramente um salto metafísico muito grande, um non sequitur. A complexidade organizada da evolução parece apontar que a probabilidade de processos cegos terem produzido por si só organismos complexos parece improvável, dado o conjunto evolução & naturalismo (E&N). O que Plantinga quis demonstrar, é que o conjunto (E&N) são auto-refutáveis. 


O argumento central do conflito entre o naturalismo e a evolução se baseia no fato de que não há intencionalidade na evolução para produzir seres conhecedores de verdades, uma vez que a evolução somente proporciona aos seres a fome, fuga, reprodução e sobrevivência. A luta pela sobrevivência do mais apto parece não envolver crenças verdadeiras do universo. Plantinga então sugere que a probabilidade de que uma crença qualquer seja falsa dado que (E&N) se segue, é muito alta. Sendo assim, a própria crença de que (E&N) está em risco, uma vez que não é possível refletir racionalmente se a probabilidade de estarmos refletindo irracionalmente é alta. Alvin Plantinga cita sua grande influência para pensar deste modo, Thomas Reid: "Se a honestidade de um homem fosse colocada em questão, seria ridículo se referir a própria palavra do homem, sendo ele honesto ou não. O mesmo absurdo existe em tentar provar, por qualquer tipo de raciocínio, provável ou demonstrativo, que nossa razão não é falaciosa, visto que o ponto em questão é exatamente se a nossa razão pode ser confiada." 

O que se segue parece óbvio. A ideia é que, se fomos projetados por um Designer, nossas faculdades cognitivas se desenvolveram com a intenção de produzir em nós crenças verdadeiras, como crença no próprio Deus e proposições contingentes, como "a teoria da evolução é verdadeira", sendo que essa "intenção" foi guiada pelo Designer. Por outro lado, se não há qualquer Designer, não há nem mesmo como verificar racionalmente se estamos corretos em crer que não há um Designer, uma vez que não há intenção na evolução distinta daquelas necessárias para suprir as necessidades primitivas dos indivíduos.

Não é uma tese da ciência que o processo evolutivo não foi guiado. Na verdade, a probabilidade de indivíduos terem sua conexão estabelecida por um designer é perfeitamente racional, como Plantinga explica: "De acordo com a crença cristã, Deus nos criou de tal maneira que podemos conhecer e estar em comunhão com ele. Ele poderia ter feito isso de várias maneiras; por exemplo, ele poderia ter feito com que nossas faculdades cognitivas evoluíssem de maneira natural. seleção e evoluir de tal maneira que é natural formarmos crenças sobre o sobrenatural em geral e o próprio Deus em particular."

Uma objeção também bastante conhecida, é a ideia de que a mecânica quântica e o desenvolvimento da física moderna não deixa espaço para Deus dentro do pensamento contemporâneo pois, de acordo com boa parte dos cientistas, tudo pode ser explicado por alguma equação da física. O engraçado é que muitos desses cientistas simplesmente ignoram a contradição aparente entre a mecânica clássica e a física quântica. Uma das tentativas de evitar essa solução é a chamada "teoria das cordas" (ou "teoria M", ou "teoria das super cordas"), cujo número de dimensões do nosso universo necessário para a teoria funcionar é exatamente 11, ou algo assim. A teoria das cordas propõe que a estrutura mais fundamental da matéria são essas minúsculas cordas que, em suas vibrações semelhantes ao de um instrumento de corda, determinam e explicam o comportamento da matéria. Para esses "físicos" teóricos de hoje em dia, a teoria fornece o entendimento que eventos absurdos como um copo cair, quebrar, e o mesmo copo simultaneamente não quebrar mas sair andando é tanto possível quanto provável que aconteça, uma vez que a realidade é composta por 11 dimensões. Essa e muitas outras bizarrices são comumente admitidas pelos cientistas contemporâneos. Para outra turminha de "pensadores" engraçadinhos, não existem "leis da física". Mas parece que ambos grupos de "intelectuais" ainda creem ser absurda a ideia de um homem ressurgir dentre os mortos. O fato é que Plantinga explica que essa falta de critério no pensamento atual é bom motivo para não levar muito a sério essas teorias que tentam explicar a realidade.

Pra mim, não é claro o que se quer dizer com um evento sobrenatural, uma vez que não conhecemos todas as "leis naturais". Dentro da perspectiva naturalista, a questão é que se Deus age e muda uma "lei natural", deveríamos assumir a crença de que de fato não há "leis naturais", uma vez que se deve presumir que essa lei é capaz de fazer predições corretas; se as predições (caso um evento predito por uma e mesma causa anteriormente verificada causando outro evento idêntico ao evento anterior) podem ser mudadas, não existe "lei natural". Todos sabem que a mecânica quântica (que é contraditória com a relatividade geral) não consegue fazer previsões exatas na escala de Planck e, para tentar resolver isso, foi inventado outra teoria metafísica de péssima qualidade (da qual se dá o nome de "teoria das cordas"). O fato é que se pressupõe que vivemos em um universo de fecho causal, o que não faz parte da ciência contemporânea, mas de especulações infundadas. Aparentemente, Deus (um ser dotado de liberdade) precisaria de uma boa razão para mudar a ordem de um universo do qual Ele mesmo mantém (assim o é de acordo com a crença teísta); talvez atender a um apelo de algum outro ser dotado de alguma liberdade significativa, caso veja algum propósito nisso e evitando, é claro, multiplicar milagres sem necessidade (Navalha de Leibniz). Isso incluiria a crença de que Deus não intervém em um mundo onde Ele mesmo mantém uma ordem mas não exclui a possibilidade de "milagres" terem existido ou existirem atualmente.


Não estamos em poder de abandonar a nossa crença em Deus se somos produto de um processo evolutivo naturalista que produz coisas aleatórias, mas que conspiram para termos crenças verdadeiras sobre o universo e indica que de fato temos; isso por que nossa crença não provém somente de um exercício de raciocínio verificável pelo método científico, embora muitas decisões acerca da existência de um Deus seja claramente dedutível, mas de um testemunho interno que afirma que somos criaturas divinas. Mas nem por isso a crença em Deus deva ser considerada intelectualmente inferior à descrença. A questão é que, se fomos projetados por Deus ou pela evolução ou por ambos, para crer em um criador e nosso mecanismo cognitivo está funcionando apropriadamente para isso, deveríamos supor que estamos epistemologicamente autorizados a crer em Deus. Penso que de fato estamos.




terça-feira, 2 de junho de 2020

Epistemologia

Muito se afirma que o conhecimento faz parte de nossos dias. Mas sobre a natureza do que é conhecer, pouco é esclarecido por aqueles que afirmam conhecer. Que tais pessoas possuem conhecimento não depende, é claro, de estas pessoas possuírem apenas uma boa explicação para o que é conhecer, mas talvez de uma ou mais condições suficientes que sejam satisfeitas pelo sujeito conhecedor no processo de adquirir conhecimento de algo. Parece-me ser necessário que para julgarmos se uma pessoa possui ou não conhecimento, precisamos encontrar quais são essas condições que, sendo satisfeitas, possibilitam um sujeito qualquer a afirmar racionalmente que possui conhecimento de algo. Na verdade, o conhecimento científico é um tanto fácil de ser verificado, uma vez que exige uma certa repetibilidade dos eventos; diferentemente de proposições contingentes sobre o mundo, que por serem filosóficas necessitam de algum procedimento de raciocínio para se obter uma correta compreensão. É mais fácil de se argumentar sobre as ciências brutas, como quando assim o faz a Engenharia, do que analisar a Filosofia, ainda que exista muitos palpites. Bem, não vamos entrar em muitos detalhes acerca da natureza do conhecimento, mas tentar de alguma forma dar uma breve explicação introdutória sobre noções básicas em Epistemologia.

A Epistemologia é a área da Teoria do Conhecimento que analisa basicamente três coisas: "o que é conhecimento" se "é possível conhecer alguma coisa" e, caso seja possível o conhecimento, "como" o adquirimos. A palavra conhecimento na Epistemologia é classicamente conhecida pela definição dada por Platão como "opinião verdadeira acompanhada de explicação racional" ou, como nos tempos modernos colocou Roderick Chisholm, "crença verdadeira justificada". Também no grande livro da Epistemologia, temos a contribuição de Richard Feldman para expor melhor o problema do conhecimento em estados mentais, mas que ilustra como as proposições não se organizam em nossa mente:

"[O] conhecimento não é um puro ‘estado mental’. A condição de uma pessoa saber depende tanto de como sua mente é – o que ela crê e por quê – e como o mundo é. [...] Note que, o que quer que nós digamos sobre o conhecimento, pode haver casos de ‘crer verdadeiramente’ e de ‘crer falsamente’ que são introspectivamente indistinguíveis. Crenças verdadeiras não tem uma luz mais brilhante que as crenças falsas. Não há nenhum ‘V’ piscante diante do olho de sua mente quando você tem uma crença verdadeira. Não há nenhuma característica interna que acompanha todas e somente todas as crenças verdadeiras [all and only true beliefs]." 

É assim chamado crença   uma das condições do conhecimento na Epistemologia, porque ninguém pode conhecer alguma coisa que não crê. Essa impossibilidade lógica e epistêmica pode ser exemplificada na frase do Chapolin, que afirmou: "Eu não acredito em discos voadores, mas que eles existem, existem!" Bem, é óbvio que para conhecer algo, uma pessoa precisa crer que tal coisa seja o caso. A crença é uma operação do intelecto que julga. Julgar, assim como nos apresentou Kant, é qualificar proposições. Considere por exemplo uma maçã que realmente é vermelha. Nós a qualificamos quando dizemos "aquela maçã é vermelha" (juízo positivo verdadeiro); quando dizemos "aquela maçã não é azul" (juízo negativo verdadeiro); quando dizemos "aquela maçã é azul" (juízo positivo falso); e quando dizemos "aquela maçã não é vermelha" (juízo negativo falso). A crença, portanto, é uma condição necessária para o conhecimento. Jamais diríamos que uma pessoa que usa a percepção sensorial para experimentar algum objeto, mas crê que aquele objeto não está ali, possui de fato conhecimento sobre tal objeto.

A condição de verdade da proposição também é necessária para constituir um caso de conhecimento, pois ninguém pode conhecer algo que não seja verdadeiro. Aqui não se está discutindo a ideia de que é impossível obter conhecimento acerca de proposições que expressam falsidade, mas sobre a relação que essa proposição possui com a realidade. Que existem contradições foi algo que Aristóteles esclareceu; mas ele também argumentou sobre a impossibilidade de uma contradição subsistir. Uma das coisas contraditórias entre si deve (por uma questão lógica básica) subsistir, e a outra, deve ser necessariamente falsa. A verdade está mais para um condição metafísica do que epistemológica e, portanto, sua existência é pressuposta para ser possível analisar as condições de conhecimento. 

A terceira condição diz respeito ao processo de como adquirimos conhecimento, se ele é uma boa razão para um sujeito afirmar que possui conhecimento de algo. O conhecimento precisa se dar de alguma forma na mente do sujeito, pois o mero palpite destituído de qualquer justificativa, não convence quando se está determinando se há conhecimento sobre alguma proposição contingente. A justificativa é então, o terceiro critério a ser considerado quando se está analisando as condições de possibilidades de conhecimento.

Muitos filósofos destacam algumas fontes pelas quais obtemos conhecimento, seja ela uma fonte primária ou secundária de conhecimento. Um filósofo que expõe de uma forma clara essas fontes é Robert Audi, e afirma serem as fontes primárias a percepção sensorial, a memória, a introspecção e a intuição a priori (razão); e as fontes secundárias são a indução através da generalização e o testemunho. A diferença entre estas duas categorias de fontes é que nas fontes primárias o sujeito conhecedor não depende de fatores externos a si mesmo para possuir conhecimento de algo, mas sim dos seus próprios sentidos para conhecer. Já nas fontes secundárias é necessária uma espécie de confiança a mais de que os meios externos sejam verdadeiros e suficientes para gerar conhecimento.

A percepção sensorial é talvez a mais básica de todas as fontes, ou talvez a mais comum, e apela para os sentidos que o ser humano possui e que se relacionam com o mundo externo. Tais sentidos são popularmente conhecidos como a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Através desses sentidos, o ser humano se relaciona com os objetos do mundo e pode conhecer tais objetos vendo eles, ou ouvindo, etc.

A memória pode gerar conhecimento quando um sujeito qualquer apela para a sua própria memória de algum fato do passado para, a partir disso, saber no tempo presente que se julga possuir ou não o conhecimento. O fato de nos esquecermos de eventos do passado não se segue que no presente ou no futuro tal evento não possa vir à tona em nossa mente através da memória e, assim, gerar conhecimento sobre algo.

Na introspecção o sujeito reflete sobre verdades da lógica e da matemática e, sem apelar para o mundo externo, conhece verdades que podem ser provadas através da reflexão sobre a natureza de tais procedimentos introspectivos. E é também uma fonte primária de conhecimento, pois o sujeito conhecedor pode ter acesso imediato à essa fonte, apelando à própria introspecção para tal.

Na intuição a priori o sujeito conhece através de experiências anteriores aquilo que está diante dele. Ele sabe, por exemplo, que o todo é maior do que a parte. Da mesma forma como sabe que se A é maior que B, e B é maior que C, então A é necessariamente maior do que C. Não é necessário a experiência a posteriori para ele então conhecer o que se dará.

Já na indução o sujeito conhece, através de eventos anteriores particulares do qual experimentou ou outras pessoas experimentaram, inferindo daí uma generalização sobre tais eventos particulares. Existe uma certa probabilidade que está relacionada com uma espécie de garantia para o sujeito conhecer. A indução é muito utilizada na ciência, como quando inferimos que se há uma repetibilidade possível de se prever, então será sempre assim. Por exemplo, se todo objeto suspenso no ar ceteris paribus caiu após ser solto, infere-se que será sempre assim a partir da generalização desses eventos particulares.

O testemunho é também uma fonte de conhecimento muito válida. E é talvez a fonte mais utilizada por nós. Quando alguém executa algum experimento em laboratório, é relatado em algum livro ou artigo, tudo o que aconteceu e então tais informações são compartilhadas com as pessoas que possuem interesse no experimento. Na ciência, isso é muito comum. Há, aliás, uma infinidade de pessoas que executaram os mesmos experimentos e relataram resultados idênticos aos que foram primeiramente testados. Em certo sentido, não é necessário que todas pessoas vão a um laboratório executar o mesmo experimento para saber se o relato dos experimentos anteriores são corretos. Mas, dado a confiabilidade dos experimentos anteriores, aceita-se como um testemunho válido que tais procedimentos foram devidamente executados. Isso acontece em diversas áreas de nossa vida. Não analisamos se o médico é realmente formado e capaz de nos diagnosticar e medicar; não analisamos se o farmacêutico não nos enganou, substituindo o remédio da caixa por algum outro qualquer; não examinamos o próprio remédio antes de ingerir, ou se a água da torneira não foi envenenada. Antes, cremos através do testemunho que nenhuma destas coisas listadas conspiram contra nós. E de fato, quase sempre estamos justificados a crer assim.

Em se tratando da justificativa para as crenças, os epistemólogos diferem no que diz respeito ao processo como essa justificativa se dá no indivíduo. Os internalistas argumentam que a justificativa para a crença gerar conhecimento depende de critérios internos na mente do sujeito conhecedor. Já os externalistas creem que os critérios para conhecer estão fora do sujeito.

No ano de 1963, um filósofo chamado Edmund Gettier problematizou a análise clássica de conhecimento, argumentando que há casos de crença verdadeira justificada onde não se constitui caso de conhecimento. Em seu artigo (de apenas duas páginas!), ele apresenta dois exemplos que evidenciam que as condições da análise clássica são no mínimo insuficientes. Um de seus contra exemplos se segue mais ou menos assim: Jones e Smith trabalham em um lugar onde eles sabem que um dos dois será promovido, mas Smith crê que quem será promovido é Jones e Smith sabe que Jones possui dez moedas em seu bolso. A partir disso, Smith infere a seguinte proposição: "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso". Acontece que quem será promovido é o próprio Smith e, sem que ele saiba disso, ele também possui dez moedas em seu bolso! Sendo assim, sua crença "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso" é uma verdade, mas por ter sido uma mera coincidência que Smith creu nessa proposição, os epistemólogos argumentam que Smith não conhece (sabe) que "o homem que será promovido possui dez moedas no bolso". Gettier problematizou tanto a análise clássica do conhecimento que milhares de páginas foram escritas para tentar solucionar seus contra exemplos. Mas não há como tratar de tudo aqui.

O ceticismo é uma crença que põe em cheque a possibilidade de conhecimento, ou pelo menos não podemos conhecer algumas coisas em específico. Céticos pirrônicos, por exemplo, negam que literalmente nada pode ser conhecido, nem mesmo esta própria afirmação de que "nada pode ser conhecido"! O famoso e antigo Trilema de Agripa é um argumento cético e que impõe algumas justificativas pelas quais não é possível conhecer, que se segue com: (a) as razões para o conhecimento continuam indefinidamente; (b) as razões terminam num ponto em que não há mais razões disponíveis para apoiar as últimas; (c) as razões circulam em torno de si mesmas. Assumir um trilema de Agripa como verdadeiro é claramente uma petitio principii e um ad hoc. Não podemos justificar o trilema sem uma espécie de "Prior Grounding Requirement". O fundacionalismo epistêmico consente que as opções (a) e (c) sejam céticas mas nega que (b) o seja; o coerentismo afirma que (a) e (b) são céticas, mas nega que (c) o seja.


A epistemologia é uma área da filosofia extremamente vasta, e seus interesses se estendem sobre a moralidade, racionalismo, ciência, religião, etc., mas acredito que esse texto serve para dar uma breve introdução e despertar um pouco mais de interesse sobre o tema.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Simplicidade

Certa vez estava andando por uma cidade quando vi, em uma parada de ônibus, uma frase que dizia "a simplicidade é o último grau de sofisticação". A primeira coisa que pensei foi algo mais ou menos assim: "bah, mas que besteira!". Acho que besteira mesmo foi ter pensado isso sem ter refletido no sentido da frase antes de tentar discordar dela. Ainda bem que está dentro das regras da vida mudar de opinião de vez em quando. Para falar a verdade, eu pessoalmente já mudei bastante ao longo desta vida.

Eu não sei exatamente quem disse tal frase, mas pensando sobre isso hoje em dia, me vejo analisando a simplicidade com muito mais cuidado do que outrora tinha e com quase atenção suficiente que ela merece. Parece um desejo natural nosso tentar fugir da simplicidade como se ela fosse algo terrível. Talvez seja terrível mesmo o sentimento que ela produz de que não somos indivíduos únicos e que a complexidade nos faz superiores aos outros indivíduos que, teoricamente, são simples demais para dedicarmos nossa atenção. Mas a simplicidade não procede de um reducionismo onde a busca pelo melhor é substituída por ornamentos preguiçosos. A simplicidade não deleta propriedades intrínsecas do indivíduo e se compõe pela ausência de criatividade.

Estou me referindo aqui da simplicidade de uma pessoa e seus atos, sua linguagem, honestidade. Não de estruturas fundamentais do Universo. Não devemos confundir aqui o ser simples com o ser simplista. O simplista é na verdade aquele que tenta reduzir o irredutível, tentando dar soluções demasiadas breves para problemas milenares! É como tentar  resolver um problema psicológico tal como borderline, ou ainda uma correlação EPR, com uma regra de 3: não vai dar certo e ainda quase ninguém será convencido. Explicar é rastrear as causas. 

Um dos mais importantes conceitos de simplicidade é a famosa Navalha de Ockham, que diz que "as pluralidades não devem ser multiplicadas sem necessidade". É um tanto fácil perceber a razão pela qual este princípio é fundamental tanto no método científico quanto no cotidiano. Uma fórmula simples sobre alguma teoria qualquer deve ser preferida àquela formulação extremamente complexa e que diz a mesma coisa. Isso acontece por que as condições de verificabilidade são evidenciadas na formulação mais simples; o que não ocorre na mais complexa, ainda que diga a mesma coisa. A probabilidade de engano no instante da verificação é menor quando se trata de algo mais simples. Um problema que ocorre é que nem sempre é tão fácil de produzir simplicidade enquanto se está tratando de temas complexos. No cotidiano, isso também é verdadeiro. Imagine, por exemplo, que alguém tente lhe dar algum golpe, apresentando alguma possibilidade de benefício muito grande pela troca de algum outro produto ou serviço a ser trocado. Deve-se querer saber o que se trata antes de tomar decisão e, se não está simples o suficiente, alguém acaba sendo persuadido ou decide que tudo deve ser melhor esclarecido.

Há necessidade, acima de tudo, de pessoas simples. Que não ficam se emaranhando em coisas vãs e improdutivas o tempo todo. Pessoas que não ficam, como o personagem Sherlock Holmes sugere, no livro "Um estudo em escarlate", poluindo constantemente suas mentes para coisas desnecessárias. São pessoas assim que tornam a vida mais agradável, textos mais acessíveis, teorias mais verificáveis, problemas mais solucionáveis, e assim por diante.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Vida intelectual

Até onde posso ver, a vida intelectual não é sinônimo de curiosidade. A curiosidade busca o saber desenfreado sobre coisas aleatórias e desconexas uma das outras. O curioso parece não saber muito para onde quer ir. Absorve todo tipo de informação que não lhe é proveitosa e não sabe o que vai selecionar para se especializar, muito menos o que fazer com o que sabe. Entra num site científico aqui, outro de notícias ali. Passa a noite entre sites anteriormente desconhecidos, pulando de um link para outro. E às vezes retorna para as coisas inúteis que esqueceu. Sua "pesquisa" é como num labirinto onde a pessoa que está perdida evita de contemplar o caos antes de tentar resolvê-lo de imediato.

Esse problema da curiosidade também é muito comum no meio filosófico, uma vez que o filósofo, como dizem, é capaz de ler variados tipos de assuntos e tem "estômago de bode". Se o bode come de tudo, eu não sei e pouco me interessa aqui. Mas parece que é verdade que muitos "filósofos" querem demonstrar supremacia intelectual ao poder palpitar sobre qualquer assunto, uma vez que se informaram sobre o que se está sendo debatido. (Coloquei filósofos entre aspas pois há uma grande diferença entre o estudante de filosofia que entende pouco sobre muitos assuntos e aquele que sabe muito sobre um determinado assunto e é capaz de pensar por conta própria.)

Mas isso não parece ser um problema somente dos "filósofos". Há também entre não acadêmicos esse problema de querer palpitar sobre tudo sem, na maioria dos casos, ser um entendedor do assunto. A razão de tal procedimento humano talvez devamos deixar para algum psicólogo responder. Mas é bem comum entre muita gente querer ser um participante da conversa, afinal, quem quer parecer intelectualmente inferior por não poder "palpitar"? Os curiosos e outros impertinentes não ficam calados, atentos ao que está sendo dito, mas estão o tempo todo preparando algum ponto relacionável ao que está sendo dito. A questão é que, como sugeriu o filósofo Mário Ferreira dos Santos, na filosofia (aqui ele sugere que é na filosofia, mas creio que também deve ser em muitos outros assuntos cotidianos, que também deveriam ser discutidos de uma perspectiva filosófica, evitando falácias e ordenando o pensamento lógica, epistemológica e metafisicamente) a única autoridade é a demonstração. Demonstrar é rastrear a razão de pensar daquela forma e não simplesmente acreditar no que se está sendo afirmado. E é também evidente que não se pode acertar em todos os raciocínios, ainda que sejam bem fundamentados e complexos.

Pode sim parecer um pouco presunçoso ou arrogante o termo "vida intelectual". Mas quero me referir ao fato de que há sim pessoas que se dedicam a saber mais sobre um determinado assunto do que o habitual. Que não se apóia em palpites sobre enunciados complexos fazendo alguma forma de reducionismo significativo ou caindo na "falácia da ignorância". O intelectual sabe para onde vai e tem um direcionamento em seus estudos; evita dispersões ou as informações inúteis. Sabe evitar também a "orgia da literatura". 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Argumento e coerência

É verdade que não devemos sustentar uma teoria simplesmente pelo fato de haver argumentos à favor de tal teoria. Pois, se pensarmos bem, há argumentos para quase tudo que se pode imaginar (pra não dizer literalmente tudo).

Parece ser um absurdo, mas de fato há argumentos para a planicidade da Terra. Há também argumentos sobre o Nazismo ter sido de direita tanto como ter sido de esquerda. Como eu escrevi acima, há de fato argumentos sobre tudo que é verdadeiro, e ainda também sobre coisas que são falsas. Não estou julgando aqui nenhum dos argumentos, mas sobre a natureza de argumentar.

Muitas argumentações foram apresentadas para sustentar teorias que hoje em dia praticamente ninguém acredita. Mas a maioria das pessoas não acredita nessas teorias, pois lhes foram apresentadas contra-argumentações que, teoricamente, refutam o argumento anteriormente apresentado e propondo uma nova interpretação à realidade. Mas o fato de existir argumento à favor de uma teoria não implica necessariamente que tal teoria é verdadeira.

É até aceitável sustentar um argumento por sua solidez lógica, mas isso de nenhuma forma implica que o argumento em si é verdadeiro e que não há posições contrárias que possam invalidar o argumento. Isso me lembra do trecho do livro "O homem sem qualidades", que diz: "Imagine o que acontece hoje em dia: quando um homem importante coloca uma idéia no mundo, ela é imediatamente submetida a um processo de distribuição que consta de simpatia e repulsa; primeiro, os admiradores arrancam grandes nacos que mais lhes agradam, e devoram o seu mestre como raposas devoram carniça; depois, os adversários eliminam os pontos fracos, e, em breve, de toda a façanha nada sobra senão uma provisão de aforismos, dos quais amigos e inimigos se servem. O resultado é uma ambigüidade generalizada. Não existe um sim no qual não se possa pendurar um não. Você pode fazer o que quiser, sempre encontrará vinte das mais belas idéias a favor e, se procurar, vinte contra."

O argumento depende primeiramente de sua validade. Mas também de sua consequência conclusiva seguir necessariamente de suas premissas, que precisam ser verdadeiras. E mais: é preciso que a teoria resista a contra-argumentos que possam refutar a teoria. Mas é também verdade que os próprios contra-argumentos podem sofrer com algum outro contra-argumento, que invalida a suposta refutação. Nesse sentido, o debate pode se estender para uma longa batalha de argumentos contra e à favor de uma teoria qualquer.

O fato é que muitas vezes ignoramos as contra-argumentações e procuramos argumentos para tudo que queremos provar. Nesse procedimento, já temos respostas prontas para as contra-argumentações daquilo que sustentamos, num procedimento de pura vaidade e tentativa de demonstrar toda nossa incapacidade de ouvir com atenção argumentos contrários aos que sustentamos. Mas é também evidente que não devemos suspender o juízo sobre qualquer tipo de conhecimento apenas pelo fato de haver argumentos para tudo. Creio que devemos é analisar qual argumento se aproxima mais com a realidade para então sustentarmos ele como sendo o mais próximo da verdade, e aceitar a mudança de opinião, se for o caso.

Pode ser o caso que há sim algumas vezes em que vemos argumentos mais sólidos do que aqueles que sustentamos e que, deveriam mudar tanto o modo como vemos o mundo quanto implicar em algo mais que ações de nosso pensamento, isto é, o nosso procedimento prático no mundo. Não deveria ser vergonhoso mudar o procedimento de nossas ações quando somos convencidos de uma ideia, mas é um fato de que um argumento possui muito mais influência em nossos pensamentos do aquilo que deveria se desenrolar na vida prática. Tal me parece ser a razão de parecer mais fácil ficar disputando argumentações infinitas e buscando argumentos e rejeitando contra-argumentos para sustentar uma teoria: a disputa fica mais interessante quando se está apenas no pensamento e não na realidade, pois talvez tanto o mudar de opinião quanto agir coerentemente com isso é tido como humilhante para muitas pessoas. Isso por que devemos primeiramente admitir que estávamos errados. E depois por que talvez dê algum trabalho mudar o hábito.

Talvez em algum texto eu apresente uma formulação lógica complexa (também é aparentemente verdadeiro que o complexo é mais convincente) de que devemos amar o nosso próximo. Segue-se necessariamente que estou amando meu próximo? Não parece ser o caso que seja assim sempre.  Talvez surgirão muitos argumentos contra e à favor da prova lógica, mas não se segue que as pessoas vão agir coerentemente com o que estão argumentando.

Logo, pode ser o caso em que nossa incapacidade de agir corretamente influencie em como e no quê queremos argumentar, sempre procurando uma forma de dar razão aos argumentos para sustentar alguma ideia, ainda que não sejamos coerentes com ela. Talvez alguém escreva contra essa postagem. Mas o que me importa agora é estar atento para o que estou argumentando e ser coerente com isso, e ouvir com atenção argumentos opostos ou que ajudem a melhorar tanto o procedimento intelectual quanto prático.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A finalidade da Beleza

Quando pensamos sobre a natureza daquilo que é Belo, deixamos de lado as outras coisas que julgamos não ser. Se por acaso dizemos que em tal coisa não há Beleza alguma, estamos na verdade dizendo que em outro lugar há. Se tentamos aniquilar o conceito de Belo negando critérios objetivos como fundamentação daquilo que é Belo, de nenhuma forma se está sendo refutado que há coisas Belas, ainda que o método científico ou alguma teoria verificacionista não pode provar a validade da Beleza. A questão é que tomarei por evidente aqui a existência de algo da qual denominamos Beleza para, então, meditar um pouco sobre sua utilidade.

Um grande problema que parece surgir quando refletimos sobre a Beleza é que ela parece prima facie inútil. Parece na verdade que ela não tem uma utilidade pública ou particular, como abastecer reservatórios de água ou ainda realizar uma cirurgia de ponte de safena. E realmente parece ser o caso que a Beleza não serve pra essas coisas, a menos que alguém creia que a Beleza por si só pode religar artérias do coração de alguém. Bem, eu não creio nisso também.

Mas eu não estou argumentando que a Beleza serve pra tudo (e também desconheço se há quem assim argumente). Ninguém falou que a finalidade da Beleza é resolver uma Conjectura de Goldbach ou reduzir os impostos. Isso seria muito bom inclusive, mas não creio que devemos desprezar uma música clássica por que ela não resolve os problemas da corrupção. Creio que utilizar exemplos particulares contingentes para fazer uma generalização é uma péssima forma de utilizar o raciocínio. 

Muito bem, vamos lá. Qual é então a finalidade da Beleza? Já sabemos para o que ela não serve, e a lista pode ser muito grande! Já tendo uma noção do que o Belo significa para nós, precisamos agora apontar algumas coisas que exemplificam a necessidade de coisas belas na vida do ser humano. Vou tentar ilustrar um ou outro exemplo da finalidade da Beleza. 

Considere por exemplo, uma pessoa que fará a cirurgia de ponte de safena. Por que exatamente ela quer continuar vivendo? Ora, se o Belo também é manifestação do Bem, como colocou Platão, então essa pessoa tem boas razões para preferir a vida do que se entregar à morte. Essa pessoa quer melhorar seu estado de saúde para contemplar o belo durante um tempo mais extenso. Ela quer se relacionar ainda mais com as pessoas que ela gosta e estender seus instantes de relacionamento com essas pessoas tanto quanto aquilo que é naturalmente belo. Talvez ela queira visitar lugares agradáveis aos seus olhos tal como um parque onde há pássaros cantando, ou ainda uma obra de arte.

Não estou argumentando que precisamos necessariamente estar sob pena de morte para encontrar uma finalidade na Beleza. A Beleza como expressão sensível também nos alegra diariamente, com toda suas variadas formas de expressões que, sendo o caso de estarmos tristes, podemos encontrar algum consolo por estas infinitas coisas Belas que podemos presenciar. A Beleza satisfaz não somente nossos olhos quando estes contemplam a ordenação da natureza ou leem o Soneto 116 de William Shakespeare; nem tão somente os ouvidos quando apreciam uma boa música como Comptine d'un autre été. Mas tanto os olhos quanto os ouvidos direcionam o que é belo à alma, que contempla e se alegra com tantos sentimentos que podem ser expressos pelas infinitas, mas não exaustivas formas de Beleza dispostas em nosso mundo. A Beleza educa a alma.

Um lugar que me chama bastante atenção sobre a significância da Beleza é a Bíblia Cristã. Há alguns trechos específicos que podem clarear um pouco aquilo que eu entendo de significante para a utilidade da Beleza; mas também a Bíblia expressa sua própria razão de argumentar em favor da existência do que é belo. "Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir", é o que diz Eclesiastes. A Beleza é uma dessas coisas que dão sentido à vida e tal é a razão que nossos olhos não se cansam de ver, nem nossos ouvidos se cansam de ouvir. Mas sempre procurando aquilo que é belo e agradável de se contemplar e ouvir, evitando-se as coisas que são irritantes aos nossos olhos e ouvidos.

Quem é que não se alegra ao olhar o céu estrelado durante a noite? Bem, há muitas pessoas que nem mesmo olham para o céu estrelado, talvez por suas cidades serem poluídas o suficiente para não conseguirem enxergar muita coisa, ou ainda por realmente não se interessarem por tal tipo de coisa. O fato de poucas pessoas se interessarem por um céu estrelado pode estar relacionado à péssima influência das mídias sociais, uma vez que não se pode tirar "selfies" com a Lua ou fazer outro tipo dessas coisas que estão na moda. O fato é que eu realmente duvido que as pessoas que ignoram a Beleza conseguem possuir verdadeira felicidade, se é que o Belo está relacionado com o Bem e com uma verdadeira contemplação das coisas que são perceptíveis aos nossos sentidos e agradáveis à nossa alma.

É também lamentável o fato de que muitas de nossas cidades são horrorosas. Tanto prédios e casas são feias e desorganizadas quanto os fios de energia elétrica, outdoors e outras coisas das ruas deixam uma péssima vontade de caminhar por esses lugares. Dá uma tristeza ainda maior quando essas disposições arquitetônicas são somadas ao péssimo gosto musical de algumas outras pessoas. Bem, mas isso tudo não significa que não há qualquer coisa bela disposta para nossos olhos e ouvidos. Acredito que basta se interessar um pouco mais sobre o que a Beleza pode proporcionar para a alma, e isso não é algo que se pode encontrar em qualquer texto (eu julgo que esse texto aqui ainda não está perto o suficiente de ser belo) ou simples fotos do Google. Acredito que valha mais a pena seus olhos e ouvidos buscarem coisas belas além do computador ou celular, pode ser mesmo o caso que a Beleza sirva para alguma coisa.

"Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor" (1 Co 15:41). 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Beleza x Inteligência

Refletindo insistentemente sobre esses conceitos há algum tempo, venho tentando, com meu próprio raciocínio, formular noções que satisfaçam um pouco daquilo que eu entendo que esses conceitos significam pra mim e tentar associar um com o outro. Portanto, quero fugir um pouco das definições que tentam associar o Belo com "aquilo que agrada a todos" ou que se baseiam na sua utilidade.

Acredito que a Beleza de algo está diretamente relacionado com algum padrão identificável em que dizemos: "Isto existe aqui e em outro lugar, mas não existe ali." Esse padrão identificável é somado à outra qualidade da qual nosso intelecto separa das coisas desorganizadas e imprevisíveis. Na soma destes padrões em relação àquilo que é fora de padrão, julgamos algo como ou sendo Belo ou então feio. Não estou dizendo assim que a Beleza é eterna no sentido que sempre existiu e não há uma forma nova contemplável, mas que nosso intelecto julga (isto é, qualifica) com maior facilidade aquilo do qual está acostumado a perceber, dado a sua simplicidade na qual tal facilidade ocorre.

Me parece que o padrão da Beleza pode ser identificado como uma razão entre a combinação de cores, traços, formas geométricas, etc. Talvez não seja somente estas coisas ou somente uma delas, mas uma combinação simples e capaz de ornamentar um padrão entre um e outro objeto. Por exemplo, um flor é mais bela que uma pedra, pois esta não possui um padrão na qual podemos identificar traços e cores organizadas, mas aquela é formada por um caule, folhas, pétalas, cores, etc. Enquanto a flor parece um fim em si mesma com toda sua composição colorida e sua forma geométrica que respeita o padrão de ser uma flor, parece que a pedra é um produto de um acidente da natureza da qual ela mesma poderia ter sido diferente.

Mas não apenas fatos concretos ou objetos são Belos. Eventos também o são. O conjunto do florescer, do pássaro cantar, do vento soprar, do meteorito atravessar o céu, etc., nos encanta mesmo que não seja um ponto fixo no espaço-tempo como qualquer outro objeto contemplável. 

Creio ser possível dizer que a Inteligência é quando conseguimos gerenciar diversas áreas de nossas vidas sem com isso perder a cabeça, como que um dom para organizar eventos e se comportar com simplicidade diante deles, não julgando-se superior aos outros ou utilizando do conhecimento que o intelecto possui para se separar de outras pessoas. Não vejo por inteligente as pessoas que desprezam outras por possuírem um grau menor de conhecimento. Vejo como sendo como um simples possuidor de uma grande quantia de conhecimento, tal como um computador qualquer.

Me parece que o intelecto não foi feito para destinar-se apenas para uma única coisa e fazer dela a única busca real. A Inteligência não é a simples capacidade de gravar informações e poder repetir elas a qualquer momento. Computadores fazem isso. E por não acreditar em inteligência artificial, eu também não creio que a Inteligência deva ser reduzida a um procedimento de decorar infinitas coisas e entender elas.

Poderia ser dito que a Inteligência é a capacidade do intelecto de resolver questões difíceis da vida, ou equações da ciência ou matemática, ou ainda da lógica, etc. Mas eu acredito que a Inteligência é a capacidade do intelecto de ser o mais simples possível diante de tantas coisas complexas e Belas. É viver com uma simplicidade não reducionista que torna perfeitamente inteligível aquilo que está complexo demais para o intelecto saber. Creio que este procedimento intelectual é também uma forma de como o intelecto corresponde para aquilo que é destinado. Ora, se o intelecto é destinado a se inclinar para um conjunto de coisas que ele precisa atender, a Inteligência deste intelecto é elevado se ele consegue atender todo o conjunto de coisas e negligencia pouco ou quase nada do qual é a sua real função.

Nesse sentido, me parece que a Inteligência também é Bela, dado que é um tanto previsível e orquestra um padrão próprio de administrar o melhor possível a combinação de qualidades que o intelecto possui. Esse padrão não é motivo nenhum de tédio por sua previsibilidade e simplicidade, mas uma garantia de contemplação duradoura que provavelmente perdurará tempo suficiente para nossa vontade criar boa expectação do futuro.

Talvez alguém diga que todos objetos são extremamente complexos em sua essência. De fato parece ser o caso. Se analisássemos a estrutura molecular de organismos, o que veremos é uma complexidade irredutível. Mas nem por isso devemos argumentar que eles não são simples no sentido de que há um determinado padrão entre eles.

Ora, até onde posso ver, na Beleza há esse conjunto de padrões que, bem organizados, deixam a coisa Bela. Também na Inteligência há esse padrão de comportamento um tanto previsível. Tal é a razão que pessoas menos dotadas de intelecto parecem ser imprevisíveis e instáveis, como se não soubéssemos se ela vai salvar o mundo ou destruí-lo. Parece que esse tipo de pessoa abençoa num dia e amaldiçoa no outro. Tal é a razão pela qual eu analiso a Beleza de uma pessoa também por sua Inteligência.

Posso estar distante ainda do verdadeiro significado dessas palavras, é claro. Mas eu apenas tive esse insight sobre a possibilidade de conectar estas duas coisas entre si, que penso ser bem justificável essa conexão. Pode ser o caso que no futuro eu altere uma ou outra coisa, seja o caso de eu pensar diferente em algum sentido ou receber algum comentário que me faça adicionar algum ponto relevante a ser observado.