sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A finalidade da Beleza

Quando pensamos sobre a natureza daquilo que é Belo, deixamos de lado as outras coisas que julgamos não ser. Se por acaso dizemos que em tal coisa não há Beleza alguma, estamos na verdade dizendo que em outro lugar há. Se tentamos aniquilar o conceito de Belo negando critérios objetivos como fundamentação daquilo que é Belo, de nenhuma forma se está sendo refutado que há coisas Belas, ainda que o método científico ou alguma teoria verificacionista não pode provar a validade da Beleza. A questão é que tomarei por evidente aqui a existência de algo da qual denominamos Beleza para, então, meditar um pouco sobre sua utilidade.

Um grande problema que parece surgir quando refletimos sobre a Beleza é que ela parece prima facie inútil. Parece na verdade que ela não tem uma utilidade pública ou particular, como abastecer reservatórios de água ou ainda realizar uma cirurgia de ponte de safena. E realmente parece ser o caso que a Beleza não serve pra essas coisas, a menos que alguém creia que a Beleza por si só pode religar artérias do coração de alguém. Bem, eu não creio nisso também.

Mas eu não estou argumentando que a Beleza serve pra tudo (e também desconheço se há quem assim argumente). Ninguém falou que a finalidade da Beleza é resolver uma Conjectura de Goldbach ou reduzir os impostos. Isso seria muito bom inclusive, mas não creio que devemos desprezar uma música clássica por que ela não resolve os problemas da corrupção. Creio que utilizar exemplos particulares contingentes para fazer uma generalização é uma péssima forma de utilizar o raciocínio. 

Muito bem, vamos lá. Qual é então a finalidade da Beleza? Já sabemos para o que ela não serve, e a lista pode ser muito grande! Já tendo uma noção do que o Belo significa para nós, precisamos agora apontar algumas coisas que exemplificam a necessidade de coisas belas na vida do ser humano. Vou tentar ilustrar um ou outro exemplo da finalidade da Beleza. 

Considere por exemplo, uma pessoa que fará a cirurgia de ponte de safena. Por que exatamente ela quer continuar vivendo? Ora, se o Belo também é manifestação do Bem, como colocou Platão, então essa pessoa tem boas razões para preferir a vida do que se entregar à morte. Essa pessoa quer melhorar seu estado de saúde para contemplar o belo durante um tempo mais extenso. Ela quer se relacionar ainda mais com as pessoas que ela gosta e estender seus instantes de relacionamento com essas pessoas tanto quanto aquilo que é naturalmente belo. Talvez ela queira visitar lugares agradáveis aos seus olhos tal como um parque onde há pássaros cantando, ou ainda uma obra de arte.

Não estou argumentando que precisamos necessariamente estar sob pena de morte para encontrar uma finalidade na Beleza. A Beleza como expressão sensível também nos alegra diariamente, com toda suas variadas formas de expressões que, sendo o caso de estarmos tristes, podemos encontrar algum consolo por estas infinitas coisas Belas que podemos presenciar. A Beleza satisfaz não somente nossos olhos quando estes contemplam a ordenação da natureza ou leem o Soneto 116 de William Shakespeare; nem tão somente os ouvidos quando apreciam uma boa música como Comptine d'un autre été. Mas tanto os olhos quanto os ouvidos direcionam o que é belo à alma, que contempla e se alegra com tantos sentimentos que podem ser expressos pelas infinitas, mas não exaustivas formas de Beleza dispostas em nosso mundo. A Beleza educa a alma.

Um lugar que me chama bastante atenção sobre a significância da Beleza é a Bíblia Cristã. Há alguns trechos específicos que podem clarear um pouco aquilo que eu entendo de significante para a utilidade da Beleza; mas também a Bíblia expressa sua própria razão de argumentar em favor da existência do que é belo. "Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir", é o que diz Eclesiastes. A Beleza é uma dessas coisas que dão sentido à vida e tal é a razão que nossos olhos não se cansam de ver, nem nossos ouvidos se cansam de ouvir. Mas sempre procurando aquilo que é belo e agradável de se contemplar e ouvir, evitando-se as coisas que são irritantes aos nossos olhos e ouvidos.

Quem é que não se alegra ao olhar o céu estrelado durante a noite? Bem, há muitas pessoas que nem mesmo olham para o céu estrelado, talvez por suas cidades serem poluídas o suficiente para não conseguirem enxergar muita coisa, ou ainda por realmente não se interessarem por tal tipo de coisa. O fato de poucas pessoas se interessarem por um céu estrelado pode estar relacionado à péssima influência das mídias sociais, uma vez que não se pode tirar "selfies" com a Lua ou fazer outro tipo dessas coisas que estão na moda. O fato é que eu realmente duvido que as pessoas que ignoram a Beleza conseguem possuir verdadeira felicidade, se é que o Belo está relacionado com o Bem e com uma verdadeira contemplação das coisas que são perceptíveis aos nossos sentidos e agradáveis à nossa alma.

É também lamentável o fato de que muitas de nossas cidades são horrorosas. Tanto prédios e casas são feias e desorganizadas quanto os fios de energia elétrica, outdoors e outras coisas das ruas deixam uma péssima vontade de caminhar por esses lugares. Dá uma tristeza ainda maior quando essas disposições arquitetônicas são somadas ao péssimo gosto musical de algumas outras pessoas. Bem, mas isso tudo não significa que não há qualquer coisa bela disposta para nossos olhos e ouvidos. Acredito que basta se interessar um pouco mais sobre o que a Beleza pode proporcionar para a alma, e isso não é algo que se pode encontrar em qualquer texto (eu julgo que esse texto aqui ainda não está perto o suficiente de ser belo) ou simples fotos do Google. Acredito que valha mais a pena seus olhos e ouvidos buscarem coisas belas além do computador ou celular, pode ser mesmo o caso que a Beleza sirva para alguma coisa.

"Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor" (1 Co 15:41). 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Beleza x Inteligência

Refletindo insistentemente sobre esses conceitos há algum tempo, venho tentando, com meu próprio raciocínio, formular noções que satisfaçam um pouco daquilo que eu entendo que esses conceitos significam pra mim e tentar associar um com o outro. Portanto, quero fugir um pouco das definições que tentam associar o Belo com "aquilo que agrada a todos" ou que se baseiam na sua utilidade.

Acredito que a Beleza de algo está diretamente relacionado com algum padrão identificável em que dizemos: "Isto existe aqui e em outro lugar, mas não existe ali." Esse padrão identificável é somado à outra qualidade da qual nosso intelecto separa das coisas desorganizadas e imprevisíveis. Na soma destes padrões em relação àquilo que é fora de padrão, julgamos algo como ou sendo Belo ou então feio. Não estou dizendo assim que a Beleza é eterna no sentido que sempre existiu e não há uma forma nova contemplável, mas que nosso intelecto julga (isto é, qualifica) com maior facilidade aquilo do qual está acostumado a perceber, dado a sua simplicidade na qual tal facilidade ocorre.

Me parece que o padrão da Beleza pode ser identificado como uma razão entre a combinação de cores, traços, formas geométricas, etc. Talvez não seja somente estas coisas ou somente uma delas, mas uma combinação simples e capaz de ornamentar um padrão entre um e outro objeto. Por exemplo, um flor é mais bela que uma pedra, pois esta não possui um padrão na qual podemos identificar traços e cores organizadas, mas aquela é formada por um caule, folhas, pétalas, cores, etc. Enquanto a flor parece um fim em si mesma com toda sua composição colorida e sua forma geométrica que respeita o padrão de ser uma flor, parece que a pedra é um produto de um acidente da natureza da qual ela mesma poderia ter sido diferente.

Mas não apenas fatos concretos ou objetos são Belos. Eventos também o são. O conjunto do florescer, do pássaro cantar, do vento soprar, do meteorito atravessar o céu, etc., nos encanta mesmo que não seja um ponto fixo no espaço-tempo como qualquer outro objeto contemplável. 

Creio ser possível dizer que a Inteligência é quando conseguimos gerenciar diversas áreas de nossas vidas sem com isso perder a cabeça, como que um dom para organizar eventos e se comportar com simplicidade diante deles, não julgando-se superior aos outros ou utilizando do conhecimento que o intelecto possui para se separar de outras pessoas. Não vejo por inteligente as pessoas que desprezam outras por possuírem um grau menor de conhecimento. Vejo como sendo como um simples possuidor de uma grande quantia de conhecimento, tal como um computador qualquer.

Me parece que o intelecto não foi feito para destinar-se apenas para uma única coisa e fazer dela a única busca real. A Inteligência não é a simples capacidade de gravar informações e poder repetir elas a qualquer momento. Computadores fazem isso. E por não acreditar em inteligência artificial, eu também não creio que a Inteligência deva ser reduzida a um procedimento de decorar infinitas coisas e entender elas.

Poderia ser dito que a Inteligência é a capacidade do intelecto de resolver questões difíceis da vida, ou equações da ciência ou matemática, ou ainda da lógica, etc. Mas eu acredito que a Inteligência é a capacidade do intelecto de ser o mais simples possível diante de tantas coisas complexas e Belas. É viver com uma simplicidade não reducionista que torna perfeitamente inteligível aquilo que está complexo demais para o intelecto saber. Creio que este procedimento intelectual é também uma forma de como o intelecto corresponde para aquilo que é destinado. Ora, se o intelecto é destinado a se inclinar para um conjunto de coisas que ele precisa atender, a Inteligência deste intelecto é elevado se ele consegue atender todo o conjunto de coisas e negligencia pouco ou quase nada do qual é a sua real função.

Nesse sentido, me parece que a Inteligência também é Bela, dado que é um tanto previsível e orquestra um padrão próprio de administrar o melhor possível a combinação de qualidades que o intelecto possui. Esse padrão não é motivo nenhum de tédio por sua previsibilidade e simplicidade, mas uma garantia de contemplação duradoura que provavelmente perdurará tempo suficiente para nossa vontade criar boa expectação do futuro.

Talvez alguém diga que todos objetos são extremamente complexos em sua essência. De fato parece ser o caso. Se analisássemos a estrutura molecular de organismos, o que veremos é uma complexidade irredutível. Mas nem por isso devemos argumentar que eles não são simples no sentido de que há um determinado padrão entre eles.

Ora, até onde posso ver, na Beleza há esse conjunto de padrões que, bem organizados, deixam a coisa Bela. Também na Inteligência há esse padrão de comportamento um tanto previsível. Tal é a razão que pessoas menos dotadas de intelecto parecem ser imprevisíveis e instáveis, como se não soubéssemos se ela vai salvar o mundo ou destruí-lo. Parece que esse tipo de pessoa abençoa num dia e amaldiçoa no outro. Tal é a razão pela qual eu analiso a Beleza de uma pessoa também por sua Inteligência.

Posso estar distante ainda do verdadeiro significado dessas palavras, é claro. Mas eu apenas tive esse insight sobre a possibilidade de conectar estas duas coisas entre si, que penso ser bem justificável essa conexão. Pode ser o caso que no futuro eu altere uma ou outra coisa, seja o caso de eu pensar diferente em algum sentido ou receber algum comentário que me faça adicionar algum ponto relevante a ser observado.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Previously on Lost...

Pensando sobre a série Lost, fui questionado qual era meu personagem favorito, já que eu assisti a série mais de uma vez. O meu pensamento imediato foi de que nenhum deles era perfeito em todos os sentidos. Sempre houve algum instante em que os personagens falhavam em algo importante. Bem, isso parece ser comum na vida de qualquer pessoa, mesmo que ninguém busque falhar. Então este comentário não foi algo tão importante assim.

Acho que ao querer apontar para o "personagem favorito", seja de filme, série, desenho ou qualquer outra coisa, queremos apontar para "aquele com o qual nós mais nos identificamos" ou "que age de acordo com aquilo eu faria se estivesse naquela situação". Porque diríamos que é nosso personagem favorito se não nos causa certa admiração ou desejo de imitar? Nesse sentido, é engraçado tentar imaginar o que se passa na cabeça das pessoas que admiram vilões. 

Bem, a minha resposta foi que o personagem mais impressionante da série Lost é John Locke, um personagem que, estando sob cadeira de rodas antes de cair na ilha, recebe um "milagre" e começa a caminhar imediatamente que o avião cai sobre a ilha. O nome deste personagem é uma referência ao filósofo britânico do século XVII, mas não me parece ser apenas um nome de um personagem qualquer. O filósofo é autor de uma tese que argumenta como sendo o trabalho como o fundamento da propriedade e cujos limites podem ser estabelecidos a partir daquilo que é possível consumir.

Na série, John Locke parece ser o único que imediatamente reconhece a riqueza da ilha, tanto que aparece comendo uma laranja e dando um grande sorriso já no primeiro episódio. Mas ele não é egoísta e tenta acumular os bens da ilha para si mesmo, tanto que propõe caça aos javalis para alimentar o grupo, utiliza do seu tempo para construir um berço para o bebê da Claire que está prestes a nascer, ajuda com ferramentas e não com o produto final. Ele também ajuda para que Charlie escolha livremente abandonar seu vício com a heroína, oferecendo a ele a chance de não lhe pedir a substância que o estava escravizando. Ele mostra para Charlie um casulo do qual poderia utilizar sua faca para facilitar que a borboleta então saísse dali, mas que esta não teria forças suficientes para sobreviver sozinha, dado que não se esforçou para vencer aquilo que a estava impedindo de seguir adiante. Ele explica que poderia simplesmente destruir a heroína de Charlie, mas que essa não seria uma decisão que faria de Charlie uma pessoa forte para a vida.

Locke reconhece que a ilha em que se encontra é um lugar especial e me pareceu ser o único que não se aterrorizou com isso, mas se sentiu maravilhado por tanta beleza e riqueza que a ilha poderia lhe dar. Ele diz em um episódio: "I've looked into the eye of this island, and what I saw... was beautiful" (eu olhei dentro do olho desta ilha, e o que eu vi... era lindo). Sua curiosidade em descobrir o que a ilha realmente é, me parece ser uma atitude razoável diante de tanta coisa que acontece na série. 

Mas diferentemente do filósofo empirista, o personagem John Locke era um homem de grande fé. Ele era guiado por suas intuições e sonhos, sempre buscando sentido em tudo que observou em uma profunda conexão com a ilha. Ele era um homem de esperança, ainda que às vezes se fundamentava em falsos pressentimentos. Muitas vezes ele se sente perdido e sem resposta do por quê as coisas acontecem de determinada forma e não saem como o planejado.

A reação de Locke ao receber uma nova oportunidade na vida é aceitar este recomeço aproveitando ao máximo o lugar onde está. Jacob afirmou que todos tinham uma vida infeliz antes de chegarem na ilha e por isso ninguém fora retirado de um mar de rosas; e Locke afirmou para Shannon que a ilha era uma oportunidade para todos recomeçarem as suas vidas. Mas é somente Locke que de fato está satisfeito por estar na ilha e quer fazer de tudo para lá permanecer. 

A questão é que Locke estava cansado de tudo de ruim que havia passado antes de chegar à ilha. Sua viagem para uma aventura na Austrália fora frustrada por algo muio triste. Sua vida em geral fora bastante decepcionante: seus pais o abandonaram para adoção, até o momento em que, estando ele próximo dos 50 anos, seu pai aparece na vida dele e lhe "rouba" um rim (pede gentilmente que Locke doe um rim mas depois ignora-o como se fosse nada). Mais pra frente, Locke descobre que seu pai está envolvido na morte de um garoto e decide intervir, até o momento que o próprio pai o empurra pela janela, do oitavo andar. Ele afirma mais tarde para Linus que sentiu sua coluna ser esmagada! Locke fica em torno de 4 anos em uma cadeira de rodas sem aproveitar nada da natureza da qual tinha tanta vontade de fazer suas trilhas e aventuras. Ele viaja para Austrália mas não consegue participar da sua aventura dada a sua condição de cadeirante.

Pode ser dito também que esses traumas que Locke possui cooperam para que ele se sinta mais à vontade na ilha. Tanto ele quer ficar que destrói o comunicador com o qual Sayid está tentando buscar uma forma de sair da ilha e dá a Sayid uma bússola estragada; destrói um submarino, destrói a estação de comunicação com o mundo externo, etc. Parece que há algo do passado que ainda atrapalha um pouco o seu caminho na ilha. Linus argumenta com Locke que este ainda estava meio perdido, e que seu propósito não era ainda tão bom quanto poderia ser até que se libertasse desses traumas do passado.

Tendo conseguido esquecer do que o passado lhe assombrara, Locke agora está disposto a proteger a ilha. Sua missão é impedir que pessoas más façam mau uso das coisas boas que a ilha possui de belo e valioso. Ele então passa a liderar um grupo de pessoas que também estão dispostas a proteger a ilha e veem em Locke a pessoa mais sábia para dar sequência nessa missão. Mas alguns eventos tornam muito difícil o que Locke precisa fazer para que as coisas "voltem ao normal". 

Acredito que tu deves saber o que ele acaba fazendo e como ele termina. Locke insiste para que Jack não saia da ilha, mas permaneça lá para cooperar com a proteção da ilha. Jack então argumenta que aquele lugar não precisava ser protegido pois era apenas uma ilha qualquer e então Locke certeiramente profetiza que sair da ilha iria corroer o coração de Jack até que ele quisesse insistentemente voltar. Locke então precisa se sacrificar para salvar a ilha e seus amigos.

Bem, Locke não me parece ser apenas um personagem de uma série de TV. Ele parece um ser humano num planeta belo e desconhecido onde coisas estranhas das mais variadas acontecem. Não é o nosso planeta uma ilha isolada entre tantos outros planetas? 

Parece que também deveríamos utilizar corretamente os recursos da Terra e contemplar o que há de belo por aqui, aceitando que esta é nossa condição agora, até que algum dia nos mudemos para outro lugar. Sabemos que apesar de tudo que há de belo aqui disponível, o nosso passado ainda pode nos assombrar de vez em quando, até o momento em que possamos nos libertar completamente de tudo de ruim que aconteceu e tomar o fardo de proteger o presente que nos foi dado: o milagre de estarmos caminhando conscientes enquanto todos os outros animais não possuem qualquer capacidade de olhar na volta e ver o quão belo são todos estes atos! Parece-me haver uma fonte de energia para este planeta tanto quanto existia na ilha. O fato é que muitos de nós parecem ignorar isso como se fosse algo muito comum.

Deixamos que nossa incapacidade de responder todas perguntas ou de entender o mundo nos assole e deixamos de estar satisfeitos com nossa posição, sempre querendo "sair daqui e ir para ali". Mas deveríamos contemplar aquilo que está em nossa volta.

O meu desejo é o de alguma forma imitar Locke nesses sentidos positivos, e poder dizer "I've looked into the eye of this island, and what I saw... was beautiful"...

Metaconhecimento?

Rogel de Oliveira é o epistemólogo mais minucioso que eu conheço, e o seu livro "Metaconhecimento e Ceticismo de Segunda Ordem" talvez seja a melhor prova disso. Com muita clareza conceitual (que é marca da filosofia analítica), Rogel analisa as condições de possibilidades de metaconhecimento, isto é, se há alguma possibilidade de alguém "saber que sabe" e como isso poderia acontecer.

O autor começa analisando algumas das principais discussões dos últimos 50 ou 60 anos da Epistemologia, e trabalha nos casos Gettier, que contrapõem a análise clássica do conhecimento que Platão destaca no diálogo Teeteto. Conhecimento seria como Roderick Chisholm melhor colocou uma "crença verdadeira justificada". Edmund Gettier explicou (em um artigo de duas páginas!) que há casos onde há "crença verdadeira justificada" que não constituem casos de conhecimento. Para fugir desse problema, Rogel adota a solução de Klein sobre a teoria de que a justificativa para a crença não ser derrotada (defeated), e considera como satisfatória essa solução.

Muitos autores parecem inferir que o conhecimento de algo implica necessariamente o metaconhecimento de tal saber. Mas é evidente que não vivemos em um mundo de oniscientes lógicos, onde todos são epistemólogos e possuem capacidade de propor justificativas bem elaboradas sobre tudo o que conhecem (se é que de fato conhecem o que creem conhecer). Contudo, o metaconhecimento precisa ser devidamente analisado e resistir a contraexemplos (talvez como os contraexemplos tipo Gettier) para considerar-se razoável e satisfatória a ideia de que alguém "sabe que sabe". O problema que o autor nos demonstra neste livro, é que em qualquer análise de metaconhecimento apresentada até então, não há algo que deixa evidente que o critério para "saber que se sabe" não é falacioso. Muito pelo contrário, Rogel expõe que todas as tentativas de aceitar as condições apresentadas claramente pressupõem o que querem provar e caem em uma circularidade epistêmica falaciosa. O critério para "saber que sabe" parece ser fundamental para analisar a possibilidade do metaconhecimento.

Tendo o cenário do conhecimento sobre proposições contingentes do mundo sido estabelecido, Rogel parte então para o problema do metaconhecimento analisando o que os autores modernos apresentaram como o cenário para metaconhecimento. Uma definição de metaconheimento fica como sendo algo mais ou menos assim:

Metaconhecimento (df) =
(i’) S sabe P;
(ii’) S crê que S sabe P;
(iii’) S está justificado em crer que S sabe P; e
(iv’) A justificação de S para crer que S sabe P não é derrotada ou defeituosa.

A condição de metaconhecimento é então apresentada em algumas teses, tais como JJ e JK (meta justification & justified on knowing) para gerar KK (know that knows), e suas tantas variações:

(JJ) Se S está justificado em crer que P, então S está justificado em crer que S está justificado em crer que P [Jsp → JsJsp].
(JJ1) Se P é evidente (para S), e se S considera se P é evidente, então é evidente (para S) que P é evidente [Esp & CsEsp → EsEsp].
(JK1) Se P é evidente para S, e se S considera a proposição que S sabe P, então é evidente para S que ele sabe P [Esp & CsKsp → EsKsp].
(JK2) Se S está justificado em crer que P, e S crê que S sabe P, então S está justificado em crer que S sabe P [Jsp & BsKsp → JsKsp].
(JK3) Se P é evidente para S e se S crê que P, então é evidente para S que ele sabe P [Esp & Bsp → EsKsp].

(KK1’) CsKsp & Ksp → KsKsp.
(KK2’) Ksp & BsKsp → KsKsp.

Contudo, como Rogel muito bem analisa, nenhuma das teses é satisfatória, pois são falaciosas em algum sentido, principalmente por pressuporem o que querem provar (petitio principii). A pressuposição cometida é inferir que a partir da possibilidade de conhecimento de proposições contingentes se pode também obter metaconhecimento. Isso fica claro na tese da identidade das evidências de 1ª e 2ª ordens: 
"A evidência que produz um estado normativo-epistêmico de primeira ordem também produz o estado normativo de segunda ordem que tem o primeiro estado como seu “objetivo”. Em particular, a evidência que produz justificação de primeira ordem é a mesma que também produz justificação de segunda ordem”.

Outra falácia sobre a possibilidade de metaconhecimento é novamente inferir que a partir do conhecimento sobre proposições contingentes sobre o mundo, é possível conhecer que se está conhecendo, tal como apresentado no "Argumento da Avaliação Epistemológica (AAE)":

(1) “Todas as condições necessárias para o conhecimento (de primeira ordem) de P foram satisfeitas no meu caso”,

(portanto)

(C) “Eu sei P”.

Parece claro o "salto" que há entre (1) e (C).

O problema das teses de metaconhecimento até então apresentadas é pressupor que o estado mental que analisa o "saber que sabe", e que está analisando a si mesmo, pode gerar alguma evidência absoluta para o metaconhecimento. O "fecho epistêmico" (epistemic closure) não garante que saber de uma proposição qualquer implica também saber que se sabe essa proposição. 

Logo no fim, Rogel também rejeita as "soluções" chamadas como o "argumento do histórico" (de que um conjunto de crenças sobre metajustificação satisfaz o critério para metaconhecimento) e o "bootstrapping" (apelar para a própria justificação internista para justificar a mesma), pois estes também caem em circularidades. A condição de não derrotabilidade das crenças que satisfaz o critério para conhecimento não satisfaz o critério para metaconhecimento. Logo, não faz sentido apelar a própria razão para saber se esta é ou não falaciosa. A solução padrão ao problema do critério cai em uma circularidade epistêmica, assumindo como verdadeira em uma das premissas a própria conclusão que se quer provar.

O problema principal é que S não está justificado em crer que não há derrotadores para sua crença que sabe p sem cair em uma circularidade epistêmica. Rogel então rejeita qualquer tese de metaconhecimento "extrafácil" que cai em falácias e conclui que é mais racional suspender o juízo sobre "saber que sabe" e adotar um ceticismo pirrônico de segunda ordem. Sua conclusão, é claro, não deve ser confundida "não há metaconhecimento", mas de que parece ser impossível alguém estabelecer um critério confiável para "saber que se sabe".

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Fatalismo e a Lógica

O fatalismo afirma que, se um evento futuro tiver que acontecer, ele necessariamente acontecerá. Logo, não é apenas verdade que um evento e do futuro acontecerá, mas que é impossível que o seu oposto (¬e) ocorra. Será que isso é verdade? Ao ler o artigo "Fatalism and the Future" do Craig Bourne no "The Oxford Handbook of Philosophy of Time", vi ali uma forma bem simples de rejeitar o fatalismo, utilizando lógica modal. Entretanto, é preciso observar cuidadosamente o que cada fórmula propõe e seguir a argumentação passo a passo.

Para iniciar, é importante propor o universo semântico da lógica que aqui utilizaremos. Considere os seguintes operadores lógicos:

p = p é o caso, onde p é uma proposição qualquer sobre o mundo;
⊃ =  se... então (implicação);
□ = é necessário que (necessidade);
¬ = não é o caso que (negação);
∧ = e (conjunção);
∨ = ou (disjunção)
∴ = conclusão.

Agora que temos nosso "dicionário" de operadores lógicos básicos, considere, por exemplo, uma proposição "c" qualquer. Digamos que c = chove. Sendo assim, infinitas proposições comuns podem ser criadas a partir desses operadores. Tais como:

¬ c = não chove.
c ∨ ¬ c = chove ou não chove.
c ⊃ ¬ s = se chove então não está ensolarado (onde s = está ensolarado)
etc

Tome agora a lei de não contradição:

¬ (A ∧ ¬A)

A partir dessa lei (que parece bem óbvia), é impossível que duas coisas contraditórias entre si subsistirem ao mesmo instante e sob o mesmo aspecto. Logo, é evidente que um evento e seu oposto (isto é, o evento não que ocorre) não podem existirem simultaneamente. Portanto, a fórmula a seguir é contraditória e impossível:

c ∧ ¬ c

Devemos entender que é impossível que as proposições que afirmam que chove e que não chove são, sob mesmo instante e aspecto, verdadeiras. Uma delas apenas deve ser verdadeira e a outra, consequentemente, falsa.

Nesse sentido, podemos também afirmar que é necessário que amanhã, ou choverá ou não choverá, ainda que não saibamos qual dos dois acontecerá. Considere a proposição sobre o futuro de que choverá amanhã como Ac. Logo,

Ac = choverá amanhã

E a proposição correspondente ao oposto de choverá amanhã é obviamente ¬ Ac.

O que temos, assim como colocou Aristóteles, fica assim: é necessário que a disjunção sobre o evento futuro é verdadeiro; mas é falso que um deles acontecerá necessariamente. Ora, é fácil saber que, necessariamente, ou choverá amanhã ou não choverá amanhã, do qual utilizamos a fórmula lógica:

□(Ac ∨ ¬ Ac)

Alguém diria que, se é verdade que choverá amanhã, então segue-se necessariamente que choverá amanhã. Mas não é possível derivar (Ac ⊃ □Ac) a partir de □(Ac ⊃ Ac). O que nós temos é apenas a disjunção de que é necessário que um ou outro aconteça, mas não de que aquele que acontecerá, necessariamente acontecerá.

Talvez também pudesse ser dito que, se existe um ser onisciente, ele saberá o valor da proposição sobre o futuro e, portanto, segue-se necessariamente que tal proposição será o caso. Considere que a proposição choverá amanhã é verdadeira e, de fato, choverá. Logo, a fórmula de é verdade que choverá amanhã é representada por v(Ac) e seu oposto por f(Ac).

Mas não se segue que por tal ser onisciente (Deus) possuir conhecimento sobre o futuro, que ele determina o futuro fatalisticamente, sobretudo em relação à ações de seres possuidores de liberdade libertária. Eis então como rejeitar esses valores como necessários:

1. v(Ac) ⊃ □Ac
2. ¬□Ac
3. ∴ ¬v(Ac)

e

1. f(Ac) ⊃ □¬Ac
2. ¬□¬ Ac
3. ∴ ¬ f(Ac)

Portanto, ¬[v(Ac) ∨ f(Ac)]. Isto é, não é o caso que, ou é verdade que choverá amanhã ou é falso que choverá amanhã.

Ora, também não é necessário que Deus cause o futuro muito antes de este chegar. Se Deus é sustentador do universo como os teístas costumam dizer, ele pode causar um evento no presente do futuro de tal evento de acordo com sua própria vontade perfeitamente livre, no lugar de "causar" num tempo t1 tal evento que ele quer que aconteça no tempo t5. Acredito ser totalmente possível Deus "esperar" o instante t5 chegar para então causar uma chuva, se é que em t5 ele vê como razoável que deve chover. Nesse sentido, podemos tanto rejeitar o fatalismo sobre eventos futuros quanto argumentar que Deus não é "escravo" do futuro, como costumam objetar alguns ateus.

Mas é claro que não estou dizendo que o argumento acima é perfeitamente verdadeiro. Mas ele pelo menos me parece ser verdadeiro e suficiente para os seus propósitos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Natureza

Um dos pensamentos que me veio à mente após mais um momento de contemplação da Natureza, foi algo próximo do que Pascal e Chesterton argumentaram sobre a relação do homem com a Natureza.

Chesterton pensava ser errôneo o pensamento naturalista de afirmar ser a Natureza a nossa mãe. "Se olharmos bem", diz ele, "a Natureza seria mais bem vista como uma madrasta". Acredito que Chesterton está argumentando sobre uma espécie de indiferença ou irresponsabilidade que a Natureza possui para com o ser humano. Ele continua e escreve: "O ponto principal do cristianismo é este: a Natureza não é nossa mãe, a Natureza é nossa irmã. Podemos orgulhar-nos da sua beleza, desde que temos o mesmo Pai. Mas ela não tem nenhuma autoridade sobre nós." A ausência de autoridade consiste em  reconhecer que é o homem que manipula a Natureza à sua volta, e não o oposto, ainda que às vezes sofra as consequências de péssimas administrações dela. Deveríamos cuidar bem de nossa "irmã menor", que é um presente do mesmo Pai.

De fato a Natureza não tem nada de mãe. Nem por isso ela é menos bela por ser menor do que nós, com toda sua extensa, mas não exaustiva lista de cores, sabores, formas geométricas, sons, força, etc., ou ainda a combinação de diversas qualidades que a Natureza possui. A Natureza de fato é belíssima e talvez meu (ou qualquer outro) vocabulário seja demasiado pobre para descrever a sua beleza, ainda que seja bem possível descrever suas qualidades. Mas não vou fazer aqui descrições de objetos ou tentar argumentar o quão bela a Natureza é. Acredito que não devemos chamar a Natureza de mãe ,pois ela por si só nos atiraria em um mundo sem qualquer instrução ao longo do percurso sobre o que deveríamos fazer aqui.

Blaise Pascal expressa um pensamento também muito interessante sobre o como a Natureza é valorativamente menor do que o ser humano. Ele escreve: "A grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável; uma árvore não se conhece miserável. É então ser miserável se conhecer miserável, mas é ser grande conhecer que se é miserável." Me parece muito real o fato de que as árvores (pelo menos as que não fazem parte de Nárnia) não escutam ou falam ou mesmo pensam qualquer coisa. Apenas nisto já é possível perceber a grandeza do homem em relação à qualquer objeto da Natureza que, ao que me parece, não possuem algum conhecimento de si ou mesmo do mundo exterior. Mas Pascal escreve mais: "Ainda que o universo o esmagasse, o homem seria mais nobre do que aquilo que o mata, pois ele sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele. O universo de nada sabe."

Há uma teoria de que se tu ficares ofendendo uma planta por muito tempo, ela seca e morre. Bem, vamos desconsiderar este tipo de pensamento por aqui. Aliás, não façam isso com as plantas e menos ainda com qualquer outra pessoa. Palavras podem matar pessoas, de fato.

Bem, não é errado se sentir maior em valor do que a Natureza, isso é ser realista. Mas é também necessário reconhecer que poderíamos imediatamente morrer sob qualquer estalo em nosso cérebro causado por algum evento na Natureza. Só posso escrever isto tudo porque minha disposição de sentidos (a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato) está direcionada a levar a informação até o cérebro, que apreende quase tudo o que recebe e transforma em conhecimento. De fato não depende apenas da existência de objetos na Natureza ou de seres capazes de conhecê-la mas, como sugere Platão em sua "Alegoria do Sol", ainda precisamos da Luz (que também pode ser chamado "razão") para conhecer os objetos na Natureza.

Nossa "irmã menor" ainda seria tão bela ou com sua devida grandeza se não houvesse seres capazes de a contemplar? 

Concluo que somos sim valorativamente maiores do que a Natureza e toda a sua infinita beleza e que devemos sim contemplar tudo o que está disponível para nós. Mas também que ser um conhecedor de si próprio e do mundo externo é ainda mais belo. A Natureza pouco conhece a si mesma. Se temos o mesmo Pai, ele certamente se preocupou muito mais com a grandeza do ser humano do que com a Natureza.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Não nos contentamos em seguir regras: queremos uma justificação para elas

O filósofo Immanuel Kant foi sem dívidas um dos mais significantes escritores da história. Seu profundo conhecimento de correntes como o Racionalismo e o Empirismo e, também, seu conhecimento da Física de Isaac Newton, fizeram de seus escritos filosóficos um material fundamental no pensamento de cientistas como Albert Einstein. Kant é justamente associado ao Iluminismo. Foi responsável por destacar a diferença entre o uso público e o uso privado da razão; a autonomia e liberdade do intelecto humano ou a dependência do saber a partir daquilo que os outros pensam.
  
Em seu livro denominado “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, Kant busca um critério objetivo para a fundamentação da moralidade que não possa ser intitulado simplesmente como uma lei onde alguém a obedece apenas por inclinação ou pressão social. O objetivo é a busca e fixação de um princípio supremo de moralidade. Para que tal procedimento ocorra, ele argumenta que o sujeito precisa agir com sua “boa vontade”; e é esta boa vontade que determina e encaminha o bom procedimento de ações e seria de certa forma importante para a felicidade do homem. Faz uma separação entre as pessoas que agem conforme o dever e as pessoas que agem por dever.  Agir conforme o dever é agir através de inclinações sociais. Agir por dever é agir por respeito à lei como um valor moral. Se uma pessoa agiu apenas por “cálculo interesseiro”, entende-se que não há aí qualquer sinal de boa vontade, mas alguma vontade de satisfação pessoal e desejo de não universalização da máxima. 

O filósofo formula um procedimento de como testar se a máxima que o indivíduo pretende adotar pode formar uma lei universal que qualquer um pode consentir com ela. Seu procedimento é intitulado “Imperativos Categóricos”. As formulações dos imperativos categóricos são: (a) age apenas segundo uma máxima (subjetiva) tal que possas, ao mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal (princípio objetivo), ou seja, age apenas segunda uma lei universal da natureza; (b) age da maneira que uses a humanidade tanto na tua pessoa quanto na pessoa do outro, sempre e simultaneamente como um fim e não simplesmente como um meio, ou seja, agir com o consentimento da pessoa; (c) age de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma, ao mesmo tempo, como legisladora universal. 

Kant argumenta que devemos nos indagar através dos imperativos categóricos que “se eu, sendo autônomo em minhas ações, quero que minha máxima seja universalizada”. Se minha máxima puder ser aplicada para todos os seres racionais, esta máxima vai entrar naquilo que se deu o nome de “comunidade moral ideal”. É partir dos imperativos categóricos que devo analisar se quero que minha máxima se torne um princípio objetivo e que, portanto, deve ser seguido universalmente. Embora habitualmente usemos as pessoas como um meio e nem sempre como um fim, Kant argumenta que o problema está em usar a pessoa simplesmente como um meio, ou seja, que a pessoa deve consentir com o que está sendo feito.

Imagine a seguinte situação: um menino chamado Astrolábio quer aprender um pouco de física nuclear e decide ir até o MIT (Massachusetts Institute of Technology) questionar ninguém menos que Ian Horner Hutchinson para aprender o que quer. Ele então chega no professor e faz seus questionamentos. É perceptível que Astrolábio não está usando o Dr. Hutchinson como um fim em si mas como um meio de obtenção do conhecimento que ele tanto quer, mas também é claro que Astrolábio não está usando-o simplesmente como meio: o Dr. Hutchinson sabe claramente da intenção do menino Astrolábio e este age de tal forma que admite que qualquer outra pessoa poderia fazer o mesmo. Há um consentimento entre ambos e a máxima do menino Astrolábio passa pelo teste de universalização no instante em que assume que qualquer um pode fazer o mesmo que ele fez.

Agora imagine o caso onde um outro menino chamado Polvo, recebe discretamente um tríplex como propina. O que o Polvo está dizendo é “posso receber algum benefício em troca de atos ilícitos”. Mas é nitidamente óbvio que Polvo está utilizando sua máxima apenas para si mesmo e não o quer que todo indivíduo faça o mesmo que ele fez. Talvez ele queira que algum outro grupo restrito a sua própria vontade faça isto. Se o Sr. Polvo decide pensar “vou receber propina” e de fato assim agir mas o Sr. Polvo não quer que pessoas saibam que está recebendo seu desejado tríplex em troca de alguns favores extra oficiais ou saibam mas não devem agir de tal forma, então temos aí um problema, pois no fim das contas ele está violando o critério da universalização da máxima que Kant argumenta ser fundamental em qualquer procedimento.

Entende-se que a razão deve evitar contradições e esta ocorre quando alguém, em determinada situação, defende uma teoria mas quer abrir exceção em algum instante que lhe convém. É pregar uma máxima que deva ser aplicada apenas em casos isolados. Entendo eu que isto deve ser evitado.

Se alguém faz algum cálculo e percebe que o resultado final de todo o procedimento da sua vida será mais abundante desgraça do que alegrias, mas ainda assim é capaz de impedir a si mesmo de acudir seu desejo interno de adiantar sua sentença de inevitável sofrimento e, portanto, não tirando sua própria vida, ele na verdade está querendo dizer que outros indivíduos diante da mesma circunstância de suicídio devem da mesma forma, suportar os sofrimentos como um dever que comporta valor moral. A contradição está quando o indivíduo defende a teoria de que na sua circunstância de calamidade está justificado a cometer suicídio mas quer abrir exceção de sua máxima para outra pessoa, como por exemplo, um familiar. Quem quer retirar a própria vida deve estar querendo dizer que esta sua máxima pode se tornar uma lei universal que comporta valor moral – o que me parece um tanto absurdo.

Se Kant consegue, a partir dos imperativos categóricos, formular um critério objetivo para a moralidade é algo bem discutível. Alguém poderia argumentar, por exemplo, que a indiferença moral parece ser o melhor procedimento num mundo onde não há evidências em favor da objetividade da moralidade; embora alguns pensadores argumentam que tal procedimento seria contra intuitivo e impossível de viver assim, dado um sentimento profundo de valoração do próximo que é mais do que as análises naturalistas dizem sobre tais procedimentos. Mas isso é algo que comentarei em outra postagem.