sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Ex lingua stulta veniunt incommoda multa

Bah! O grande matemático e lógico do século XX Kurt Gödel costumava dizer que quanto mais ele refletia sobre a linguagem, tanto mais se admirava como as pessoas conseguem se comunicar umas com as outras. Confesso que não entendi muito bem o que ele quis dizer... Brinks!

A linguagem é um elemento fundamental em qualquer tipo de relacionamento, seja quando alguém quer elogiar ou até mesmo ofender outra pessoa. A linguagem também é utilizada para muitas outras coisas, tal como identificar plágio, ou ainda estilos linguísticos. É usada também para poesia, contos, descrições de ambientes ou ainda estados psicológicos; a linguagem também serve para criar humor.  Usamos a linguagem para demonstrar que não entendemos algo – ou pelo menos deveríamos usar quando for o caso, mas às vezes fingimos que entendemos simplesmente para não ficar com o status de intelectualmente inferior –, usamos também para demonstrar alegria, tristeza, esperança, desespero, satisfação, desgosto, confiança, suspeitas, ironia, e tantos outros sentimentos.

Mas a linguagem também é útil para entender tudo isso. Sendo assim, a linguagem é efetiva em um relacionamento qualquer, quando pressupõe tanto um sujeito x que expressa uma proposição p, quanto um sujeito y que compreende tal proposição. De nada serviria a linguagem de alguém sem um sujeito receptor que compreende o significado dos mecanismos da linguagem. É como na analogia do Sol na República de Platão. Talvez a um estudante de filosofia, alguém poderia perguntar, por exemplo, se aquele já conversou com um sofá. A resposta, após uma análise da sutileza da ironia, seria algo como: "sim, ele disse sente-se". Mas ao tolo devemos responder de acordo com suas necessidades, é claro, pois seus esforços para aperfeiçoar a comunicação são quase nulos, e os resultados, zero. Os objetos nada dizem diretamente. Mas é necessário entender esses problemas de linguagem.

É verdade que nem sempre optamos por utilizar a linguagem da melhor forma possível. Tome por exemplo um caso no livro "o idiota" onde um homem está fumando seu charuto dentro de um trem, próximo a duas senhoras que estão sentados em sua frente, insatisfeitas com a fumaça produzida pelo charuto dentro do trem. Existe uma linguagem inicial entre o fumante e as duas senhoras, que expressa pela insatisfação das senhoras. O caso se segue com o homem fumando tranquilamente seu charuto pra fora da janela, pois segundo ele, estas senhoras estão falando em inglês e, portanto, não estão falando nada. Ele considera que deveriam falar algo, seja com palavras em Russo (se fosse possível pra elas) ou com alguma outra expressão de gentileza que demonstrasse o desejo de que este senhor apagasse o charuto ou jogasse ele pela janela. O senhor inclusive diz que é pra isso que serve a linguagem! A senhora que está com um pequeno totó prefere então dar preferência a uma linguagem mais agressiva e decide arrancar-lhe o charuto das mãos e atirar pela janela! Não me perguntem porque ela faz isso. Mas a resposta utilizada por este senhor é pior ainda. Ele então agarra o pequeno totó que está no colo de uma das senhoras e o atira pela janela, atrás do charuto!

Outro caso que achei interessante sobre a linguagem está localizado no "Senhor dos Anéis". Samwise, tendo muitas razões para crer que o seu amado amigo estava morto, decide dar sequência no plano de destruir o Um Anel. Após descobrir que Frodo estava vivo, Sam decide imediatamente devolver-lhe o anel para que Frodo carregasse novamente esse fardo terrivelmente pesado, mas cogita a possibilidade de ajudar seu amigo carregando o anel. A resposta de lânguido Frodo foi imediatamente bruta, ordenando que Sam o devolvesse e acusando-o de ser um ladrão! Mas Sam percebe que talvez não estivesse em poder do seu melhor amigo agir de outra forma naquele momento e não considera como sendo isso o que o verdadeiro Frodo diria para ele. Havia uma tendência muito forte de eles iniciarem uma briga naquele instante, mas a linguagem existente entre eles foi fundamental para que Sam não responder igualmente com palavras severas e Frodo se desculpar por ter sido arrogante.

Há, porém, os casos onde não somos coerentes com aquilo que dizemos. Que também pode ser representado naquele ditado popular: "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Aliás, porque sequer deveríamos considerar essa uma pessoa razoável para darmos ouvidos ao que ela diz com os lábios? Afinal, ela no fundo quer fazer (e verdadeiramente o faz) outra coisa mas não o que seus lábios professam. Sua linguagem mais marcante são seus atos e não o seu discurso proverbial e cheio de aforismos inspiradores. É de se pensar que é como quando Chesterton compara Nietzsche com Joanna D'arc: parece que Nietzsche é inspirador com toda a sua disposição retórica para enfrentar grandes problemas etc., mas quem vai a luta e não temeria nem mesmo um exército sozinha é Joanna D'arc.

Ok! Talvez tu diga que eu deva ter lido o suficiente para tanto conseguir me expressar quanto compreender muita coisa. E de fato sobreviver a leituras de textos complexos como os de Duns Scotus e captar os floreios sem muito sentido de filósofos continentais de certa forma me ajuda bastante na compreensão e elaboração de ideias por conseguir manejar razoavelmente a linguagem, mas isso de nenhuma forma determina o comportamento diante de certos casos. Não nos parece que Kurt Gödel deveria também sugerir que as pessoas muitas vezes entendem o que as outras estão dizendo, mas simplesmente não optam por revidar agressivamente? Qual a diferença entre o relato de Samwise com seu mestre Frodo, e o caso do charuto e do totó dentro do trem?

Parece-me que a perfeição da linguagem está ligada com a lógica do coração baseada na aptidão intuitiva de se relacionar com gentilezas, exposta por Pascal; e que a ausência de uma boa linguagem é uma das causas de grandes conflitos. Teologicamente, é o que sugere alguns versos de Tiago sobre o poder de que a língua tem de destruir. Ex lingua stulta veniunt incommoda multa! (De uma língua tola vêm muitas palavras irritantes!)

Entendemos a arrogância e a incoerência, mas nem sempre precisamos responder a mesma altura e agir como se fosse inevitável dar uma resposta automática que é como "fumaça para os olhos" ou "vinagre para feridas". Bem aventurados são os pacificadores.

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